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July 2016

    A VIDA SECRETA DO COMPORTAMENTO

    Primeira ida ao cinema do pequeno catita Tcham Tcham Tcham: “A Vida Secreta dos Bichos”…

    “Já chegámos? Falta muito? Vai começar quando? Temos de esperar pelas pessoas todas? Mas mãe, quantos minutos faltam exactamente para começar? As pessoas vão todas ver o filme? Vai ficar escuro porquê? Lá em casa vemos televisão com luz. A luz estragou-se?” Fui atacada por uma metralhadora pré-escolar de perguntas variadas.

    Começou o filme, o ecrã era tão grande que o catitinha não sabia onde ele acabava e o filme começava. Estava mesmo lá dentro, no meio da bicharada. Tapava os olhos nas cenas mais assustadoras (em casa costuma fugir para a cozinha) e apertava a mão do pai nas mais emocionantes.

    O filme é repleto de acção, humor, muitos animais, heróis improváveis e vilões ainda mais improváveis: um coelhinho mais que fofinho com olhos de gato das botas mas com um comportamento de diabo da Tasmânia. Tal como com uma criança se olharmos para lá do comportamento, que é só uma forma pouco óbvia de comunicar o que se passa dentro dela, descobrimos que há uma necessidade emocional não preenchida. Neste caso, um grande abandono, uma falta de reconhecimento e conexão. Colo, o coelhinho levado da breca precisava de muito colo. Mas quem olha para ele mais depressa o leva a ver todas as temporadas da Guerra dos Tronos do que lhe dá umas festinhas nas orelhas, o que aumenta ainda mais a necessidade e agrava ainda mais o comportamento. É nestes momentos que é preciso mudar o nosso comportamento em relação ao comportamento deles. Principalmente se fôr bem difícil fazê-lo. Da próxima vez que o teu filho estiver um coelhinho pouco fofinho tenta perceber do que ele está mesmo a precisar e qual a necessidade que ele secretamente esconde no seu olhar feroz.

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    O RAPAZ MARAVILHA QUE DE MANHÃ ESTÁ EM CÂMERA LENTA

    Guilherme, 4 anos demoraaaa a levantar-se da cama. “ Guilherme, levanta-te” Demoraaaaaa a tomar o pequeno almoço. “ Anda Guilherme come, vais chegar atrasado!” Demoraaa a vestir a roupa e a bata da escola. “Guilherme despacha-te” Demoraaaa a calçar os sapatos. “Guilherme! Uhuuuu!!!” Demoraaaaa a sair de casa para ir para a escola. “ Guilhermeeee anda, anda! O pai já está no elevador.”

    São assim as nossas manhãs, em câmeraaaaa lentaaaa.

    Eram assim as nossas manhãs. E provavelmente assim são as vossas manhãs.

    Este é o momento de parar. Parar e respirar profundamente e olhar como observador, sem julgamento para toda a dinâmica da manhã.

    Foi o que eu fiz, e reparei que o meu filho estava a tomar o pequeno-almoço vidrado nos desenhos animado em modo estátua-que-não-come e eu gritava “despacha-te”.

    Tivemos obras durante um mês na cozinha. Todas as refeições nem sei bem como, começaram a ser feitas no sofá a ver televisão. O pequeno almoço também. Nos dias de escola, como é óbvio, o Guilherme queria ver televisão de manhã, o que tornava tudo muito complicado e ainda mais lento. “Come, vou desligar a televisão! Despacha-te Guilherme!”. Comecei a imaginar um adolescente obeso que comia em frente à televisão e nem percebia a quantidade de comida que estava a ingerir. Nem o quê.

    Além disso, eu passava o tempo todo a ameaçar desligar a televisão, o que era muito pouco consciente da minha parte e não era de todo uma consequência natural do facto de ele não estar a comer.

    A Parentalidade Consciente usa algumas ferramentas que nos ajudam a perceber melhor as necessidades que os nossos filhos precisam de sentir preenchidas e que muitas vezes ficam perdidas no seu comportamento, que é o maior foco de outras formas de educação.

    Um dos métodos que gosto de utilizar é o método LASEr do Pedro Vieira. Este método define 4 cores de personalidades-tipo às quais correspondem necessidades predominantes. Através deste método, percebi que o Guilherme tinha uma energia vermelha pois é uma criança que adora elogios e valoriza ser o melhor em tudo o que faz. Tem uma personalidade forte e uma grande necessidade de importância e reconhecimento.

    É também uma criança verde, que valoriza muito os momentos em família, precisa da sua dose extra de mimos e carinho e preocupa-se muito com o bem-estar dos outros. Sofre quando as conexões são quebradas pois tem uma grande necessidade de conexão e pertença.

    Decidi olhar para todo o cenário sem julgamentos e principalmente com as minhas intenções como mãe em mente. (A primeira coisa a fazer quando somos pais é escrever as nossas intenções para que sirvam de mapa e apoio em qualquer situação. Permite-me perguntar “gritar com o meu filho, está de acordo com a minha intenção enquanto mãe?” e sentir a resposta imediatamente. )

    Avaliando a situação à luz das nossas intenções e das necessidades do Guilherme decidimos mudar as refeições para a cozinha, onde não há televisão. Explicámos ao Guilherme o que iria acontecer e fizemos um jantar de inauguração onde ele foi o primeiro a escolher o seu novo lugar. Foi a primeira refeição em família na cozinha!

    O Guilherme passou a preparar orgulhosamente o seu pequeno-almoço, o que desenvolveu entre nós a cooperação e a confiança através das tarefas da manhã.

    Confio que ele prepara o pequeno almoço sozinho e todos cooperamos para tomarmos o pequeno almoço juntos o que cria um momento de ligação e pertença logo pela manhã.

    Quando o vou acordar, respeitando o seu lado verde que adora conexão, fico um bocadinho com ele deitada na cama a dar miminhos e a perguntar como foi a noite. Para o tirar da cama, apelo ao seu lado vermelho:

    “- Guilherme, vamos ver se chegamos à cozinha e preparamos o pequeno almoço antes do pai sair do duche? Achas que conseguimos?

    – Claro que sim, eu sou um pirata. E um gato.”

    Troquei o “despacha-te” por instruções mais simples e claras. Tento dizer o que quero que o Guilherme faça e não o que não quero. Em vez de “Agora não é para brincar com os legos” digo “Calçar os sapatos, pirata Guilherme!”

    Deixo-o escolher pelo menos uma peça de roupa e ter influência na ordem como fazemos a rotina matinal para sentir a sua opinião vermelhinha reconhecida e validada.

    O “vamos chegar tarde à escola” não funciona lá muito bem comigo. Para já porque ele tem 4 anos e é mais interessante ficar na cama mais um bocadinho do que chegar “a horas” à escola. Descobri recentemente que se lhe colocar um desafio de estarmos prontinhos com o casaco vestido para sair de casa antes do ponteiro dos minutos chegar a um certo número torna tudo mais divertido. Ele adora ir a correr para a cozinha, olhar para o relógio e dizer “Ainda falta um bocadinho, vamos mamã, vamos. Vamos conseguir.”

    Este truque guardo para emergências nos dias em que é mesmo preciso chegar a horas. Nos outros dias é seguir atentamente as pistas do Guilherme e quando dou por mim estamos a sair de casa.

    Foi assim com um pequeno-almoço especial que o meu rapaz maravilha de manhã ganhou um turbo.

    (Escrito originalmente pela Mãe Catita para o site da Academia de Parentalidade Consciente)
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    O PEQUENO GRANDE CATITA

    5 anos. Passaram 5 anos desde aquele primeiro dia no hospital em que eu olhava para ti e dizia “filho” e olhava para mim e dizia “mãe”. Disse-os vezes sem conta até me convencer que tinhas chegado e que eras tu que me davas tuns tuns na barriga e que respondias com coreografias de hidroginástica, na minha piscina interna, cada vez que o pai catita cantava a música, em japonês, do “Conan o rapaz do futuro”.

    Ser Mãe cresce todos os dias, cresce com eles. Cresce uma força, um acreditar na vida como te vejo acreditar, uma capacidade de acordar “n” vezes durante a noite e voltar a fazer tudo igual se na noite seguinte eles precisarem de nós. Um dar sem fim do fundinho do nosso ser. Estamos os dois tão crescidos, pequeno catita… temos aprendido tanto um com o outro.

    Mas o mais desafiante tem sido não querer que tu sejas como eu. Deixar-te seres tu com o teu potencial e as tuas características únicas. Permitir que esse teu processo me inspire para ser uma melhor versão de mim. O mais difícil é deixar-te percorrer o teu próprio caminho, aquele que já é teu assim que nasceste. É difícil, mas é a melhor prenda que te dou. Estou aqui, sempre, de coração maior a amparar-te enquanto aprendes a andar e te preparas para correr pela vida fora.

    Os filhos não são nossos, são deles próprios. Tu não és meu, mas o meu coração é teu, desde que ouvi o teu, bater pela primeira vez. Parabéns grande catita pequenino.

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    AS COISAS COMO ELAS ACONTECERAM

    Aconteceu algumas vezes. O pequeno catita contava-me as aventuras do seu dia a dia em modo injustiçado. Do seu ponto de vista a coisa não parecia lá muito catita. “O meu amigo chegou ao pé de mim e tirou-me a bola. Já não é meu amigo. Já não vai à minha festa de anos” (O maior castigo social por volta dos 5 anos é não convidar alguém para o aniversário.) Em conversa com a educadora e comparando versões, lá percebi, ele afinal não me contava o filme todo, só fazia um pequeno trailer com os momentos chave que achava pertinentes e úteis para a sua versão.

     TLIM TLIM TLIM! Disparou o meu sensor interno, estava perante mais um momento MIP (momento importante de parentalidade). Como poderia ajudar o pequeno catita a expressar-se sem julgamentos?

    Tive uma ideia e corri animada para ele (pronto, dei 3 passos mais rápidos) e disse:

    “- Acabei de inventar um jogo mesmo divertido para jogarmos juntos! Não precisamos de brinquedos só de mim e de ti! E podemos jogar em qualquer lugar, a qualquer hora! Queres jogar comigo?

    – Simmmmm!

    – O jogo chama-se “Contar as coisas como elas aconteceram”. Temos de fazer qualquer coisa e depois contamos exatamente passo a passo como tudo aconteceu. Não é fantástico? Quem começa?

    – Eu! eu!”

    Descrevemos idas à casa de banho, passeios à cozinha, telefonemas aos avós, preparação de refeições, visitas ao supermercado, zangas e turras, tudo tudinho descrito ao melhor estilo de relato de futebol. Sem julgamentos, apenas as coisas como elas aconteceram. E foi tão inesperadamente divertido.

    Uns dias depois, enquanto ele descrevia espontaneamente um episódio que aconteceu na escola de uma forma muito mais pormenorizada, quase em modo documentário National Geographic de domingo, acabou o relato dizendo “e foi assim que as coisas aconteceram mamã.” E foi assim que ele aprendeu o primeiro passo da Comunicação Consciente: a observação sem julgamento.

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    PINTAR DENTRO DOS CONTORNOS É QUE É NORMAL

    Tinha o pequeno catita 4 anos acabadinhos de fazer quando a educadora, cheia de boa vontade, chamou-me à parte com um ar preocupado e disse: “Ele quando desenha nunca faz contornos. E quando lhe pergunto porquê ele diz que o desenho é isto tudo”, apontando para lá da folha de papel. Eu fiquei feliz, ela ficou preocupada.

    Pensei que era maravilhoso ele não limitar a sua imaginação e sentir que as coisas vão muito para além dos limites que lhes queremos colocar. Ele estava a descobrir uma visão única e especial do mundo e isso era uma ótima ferramenta para usar pela sua vida fora.

    Se pensarmos bem, as grandes descobertas só são feitas quando olhamos para o mesmo problema de um ângulo diferente. Ou quando vemos o problema como um ponto de partida e não um problema. Se olharmos todos da mesma maneira para a mesma coisa, vamos sempre ver o mesmo e a humanidade não evolui.

    Muitas das características únicas do teu filho, que hoje não “encaixam” nas tabelas de excel, vão ser as mesmas que o vão tornar um profissional único, com uma visão inovadora e verdadeiramente pioneira.

    O miúdo teimoso.. torna-se um adulto que não desiste. A miúda que questiona tudo…torna-se uma cientista quântica. A criança que não faz contornos… torna-se um adulto que não constrói barreiras e percebe que a humanidade, afinal, “é isto tudo”.

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    COMO DAR CABO DA AUTOCONFIANÇA DE UMA MÃE COM UMA LULA

    “Que lindo!” “Gostas mamã?” “Gosto muito!”– tempo médio da conversa, 10 segundos.

    Quando os nossos filhos nos mostram os seus desenhos, muitas vezes obras cubistas/surrealistas, pensamos é agora, tenho de lhe dizer que gosto muito para ele ficar feliz e confiante. Surgem nesse momento duas questões pertinentes. Uma, é a cara de estranheza que a mãe ou o pai está a fazer enquanto tenta perceber que raio representa o desenho e pede a todos os santinhos que o miúdo não lhe faça perguntas sobre a sua obra. A outra é uma tentativa de variação de vocabulário para parecer mais natural “Já disse “bonito” da outra vez… lindo, filho tá liiindo!” Ou seja, o nosso filho percebe que não estamos a ser lá muito sinceros. No entanto, estamos perante um momento extremamente importante em que podemos regar a autoestima da criança ou a sua autoconfiança. Mas não é a mesma coisa? Não. A melhor forma de entendermos é retirando o prefixo “auto” e ficamos com Confiança e Estima. A confiança relaciona-se com uma área específica, é uma aptidão ou um talento, algo que se faz bem (confiança a jogar matraquilhos, a cantar em público ou na aula de matemática), estamos no domínio do fazer.

    A autoestima saudável permite-me falhar um golo e lidar bem com isso, é uma espécie de sistema imunitário social e enquadra-se no domínio do ser. Se tenho uma autoestima saudável sinto-me bem comigo e sei quem eu sou.

    A autoconfiança cresce com os elogios, prémios e notas boas.

    A autoestima cresce quando estou rodeado de pessoas que se preocupam e valorizam o que sinto e penso e que reconhecem as minhas necessidades. Olham para mim, reconhecem-me e respeitam-me como o ser humano único que sou.

    Voltando ao nosso desenho, percebemos agora que o “está lindo!” apenas foca na autoconfiança. Será que a criança faz o desenho à espera da nossa validação ou porque lhe apetece mesmo fazer um desenho? Valorizando o processo da criança e mostrando curiosidade pelo que ela fez e como o fez, aumentamos a sua autoestima. “Uauu, Tantas cores! Gostas mesmo de azul! E isto são peixes? Que peixe é este?” “Oh Mãe! Não é um peixe, não tem barbatanas, tontinha. É uma lula vampira como nos octonautas!” tempo médio da conversa, 30 minutos.

    A minha autoestima também ficou regada mas a minha autoconfiança em relação a animais marinhos foi pelo cano.

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