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AS COISAS COMO ELAS ACONTECERAM

Aconteceu algumas vezes. O pequeno catita contava-me as aventuras do seu dia a dia em modo injustiçado. Do seu ponto de vista a coisa não parecia lá muito catita. “O meu amigo chegou ao pé de mim e tirou-me a bola. Já não é meu amigo. Já não vai à minha festa de anos” (O maior castigo social por volta dos 5 anos é não convidar alguém para o aniversário.) Em conversa com a educadora e comparando versões, lá percebi, ele afinal não me contava o filme todo, só fazia um pequeno trailer com os momentos chave que achava pertinentes e úteis para a sua versão.

 TLIM TLIM TLIM! Disparou o meu sensor interno, estava perante mais um momento MIP (momento importante de parentalidade). Como poderia ajudar o pequeno catita a expressar-se sem julgamentos?

Tive uma ideia e corri animada para ele (pronto, dei 3 passos mais rápidos) e disse:

“- Acabei de inventar um jogo mesmo divertido para jogarmos juntos! Não precisamos de brinquedos só de mim e de ti! E podemos jogar em qualquer lugar, a qualquer hora! Queres jogar comigo?

– Simmmmm!

– O jogo chama-se “Contar as coisas como elas aconteceram”. Temos de fazer qualquer coisa e depois contamos exatamente passo a passo como tudo aconteceu. Não é fantástico? Quem começa?

– Eu! eu!”

Descrevemos idas à casa de banho, passeios à cozinha, telefonemas aos avós, preparação de refeições, visitas ao supermercado, zangas e turras, tudo tudinho descrito ao melhor estilo de relato de futebol. Sem julgamentos, apenas as coisas como elas aconteceram. E foi tão inesperadamente divertido.

Uns dias depois, enquanto ele descrevia espontaneamente um episódio que aconteceu na escola de uma forma muito mais pormenorizada, quase em modo documentário National Geographic de domingo, acabou o relato dizendo “e foi assim que as coisas aconteceram mamã.” E foi assim que ele aprendeu o primeiro passo da Comunicação Consciente: a observação sem julgamento.

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