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July 2016

    TIME-OUTS PARA PAIS ENROLADOS

    Sabem quando estamos embrenhados numa dinâmica com o nosso filho que cada um puxa para um lado mas o fio tem vários nós e quanto mais puxamos mais difícil fica de desenrolar a situação? Ontem foi assim.

    Era tarde, muito tarde e eu tinha tanto sono… e o pequeno catita também. Estávamos os dois exaustos e sem capacidade anímica para sermos tolerantes, pacientes ou fofinhos. Puxávamos teimosamente a nossa ponta do fio, cada vez mais convictos que a minha ponta é que era a certa há uns bons 15 minutos quando decidi fazer um intervalo. Se o teu filho fica em segurança, nestas situações de enrolamento profundo dá-te 5 minutos. Vai lavar a cara, vai comer chocolate preto, respira como se fosses fazer mergulho ou seja lá o que for que faz reset ao teu sistema. O chocolate preto é sempre uma opção catita para mim aliado a três respirações bem profundas.

    Posto isto, já com o nível de açúcar recuperado voltei à cena. Consegui com presença, olhar para a situação como um observador e ver que aquilo não nos estava a levar a lado nenhum. Larguei o meu “tenho razão” e disse Sabes estou mesmo cansada e percebi que quando estou mesmo cansada fico mais irritada e sem paciência, desculpa.”

    Ele parou e ficou a olhar para mim. É engraçado quando deixamos de alimentar aquela dinâmica ela perde imediatamente a força.

    “Eu também estou cansado, dói-me as pernas por isso não queria vestir o pijama.” Disse o pequeno catita.

    “Então e se eu te ajudasse? Depois levo-te ao colo para a cama para não fazeres força nas pernas, achas boa ideia?”

    “Tá bemmmmmmm”. Enquanto o levava ao colo para a cama sentia os restantes nós a desenrolarem-se e os seus pequeninos braços a enrolarem-se carinhosamente à volta do meu pescoço.

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    FAZER MENOS PARA SER MAIS

    Que brinquedo queres levar para o fim de semana?” – perguntei ao pequeno catita.

    “Nada. Quero levar-te a ti”.– respondeu como se fosse completamente óbvio.

    Ir sem adereços, não é nada óbvio. Quando vamos, levamos “fazeres” connosco. Uma bola para jogar, umas bolinhas de sabão, um jogo de tabuleiro, umas canetas para fazer um desenho. Um saco de coisas para fazer. Todos os adultos andam com um. Pode não ser visível, mas todos carregamos o nosso saco de fazeres. Quando temos um momento de espera, na paragem do autocarro, no restaurante enquanto a amiga não aparece ou noutro milésimo de segundo de espera, tiramos o saco cá para fora. “Vou mandar este email… deixa-me ver o facebook…organizar as moedas da carteira por ano de emissão…deixa ver o tempo para o fim de semana…”

    Raramente somos só nós. Raramente estamos connosco. Raramente somos mas a todo o momento fazemos. Os nossos filhos sentem esta velocidade, eles apanham este ritmo furioso de vida, este aceleramento não sei para aonde. Esta urgência constante.

    Nada. É importante os nossos filhos terem momentos de nada para fazer. Nada de nada. Terem a oportunidade única de estarem consigo mesmos. Se estão sempre no fazer, como podem ouvir o silêncio? Se estão sempre no fazer como podem ter a oportunidade de ficarem aborrecidos, entediados e depois descobrirem que a sua imaginação não tem fim e que tudo à sua volta pode ser uma aventura? Se não tiverem quietude como podem ouvir a criatividade? Se não houver um vazio como pode entrar algo novo?

    Vamos pais, vamos fazer nada juntos.

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    O FABULOSO MENINO QUE NUNCA TINHA SONO NOS OLHOS

    Miúdo catita, 4 anos tem pilhas duracel depois das 20h30. É só mais uma banana, ou uma compota… não, não, na verdade o que ele tem é sede. Mais um xixi ou dois.. agora caía mesmo bem um copo de leite. Remata com uma demonstração de ginástica, um pequeno verso e tarefas infindáveis porque não tem sono nos olhos. “Ó mamã deita aqui que eu tenho frio nos pés.” Ufa. “Tenho fome na barriga assim não consigo dormir.” Ufa. Tenho só de ir fazer ali uma coisa.” Ufa. Ufa.

    Muitas vezes adormecemos ao lado dele, depois de longas, muito longas conversas. Tentamos tudo e mais alguma coisa, até que fica demasiado tarde e de manhã o menino tem sono nos olhos e nós também.

    Num momento de respiração profunda, os meus pulmões estavam preparados para fazer mergulho em apneia, comecei por tentar perceber quais as são minhas necessidades que não estão a ser preenchidas e que pensamentos/crenças surgem na minha cabeça enquanto o pequeno catita não adormece. Ora bem, vamos lá. Pensamentos é o que eu mais tenho por volta da meia noite.

    ”Tenho tanta coisa para fazer ainda, vou deitar-me tardíssimo. Estou tão cansada.” “Ele já devia estar a dormir, já é tão tarde. Isto faz-lhe mal.” ”Ele está a gozar connosco.” “Quantos anos é que ele tem mesmo??”

    Respira Catita.

    Primeiro, decidi perceber o que é mais importante a cada momento; Comecei por definir as tarefas que são prioritárias e as que ficam para amanhã, assim fico bastante mais calma e presente e com menos pensamentos na cabeça. Quando fiquei mais tranquila, percebi pouco a pouco que adoro estar com ele um bocadinho antes de ele dormir. É quando conversamos mais e quando descubro sempre alguma coisa nova acerca dele. É um momento “fixe” de grande conexão em que partilhamos o quanto gostamos um do outro. Vá, é um grande momento em que eu fico toda derretida enquanto ele diz repetidamente “mãe és tão fofinha.” Eu sei, é graxa. Mas sabe mesmo bem.

    Liguei novamente o detective-mamã e percebi como é importante para ele aquele momento de conexão (por isso é que ele não quer que o momento acabe) (necessidades da criança verde segundo método LASEr). Reparei também como gosta de ser ele a definir algumas das rotinas antes de dormir, ter a possibilidade de escolher que pijama veste ou por que ordem as tarefas são realizadas (necessidades da criança vermelha). Precisa de dizer a última palavra, ou neste caso pedir a última banana para comer.

    21h23 depois de ter jantado como um adolescente de 18 anos… 
    “- Mãeeeeee, a minha barriga tem fome preciso de comer 3 coisas. Senão não consigo dormir.

    – Já percebi que ainda tens fome. Mas só tenho uma banana aqui. Mais nada. Queres agora? Ou comes amanhã de manhã?
    – Tá bemmmmmmm” Depois deste lanchinho final, adormeceu. Sentiu que tinha escolhido a forma como iria adormecer, com a barriga cheiinha e as necessidades preenchidas.

    Aos poucos fui percebendo como é importante criar um ritual definido pelos dois, cheio de conexão e reconhecimento para o miúdo catita adormecer feliz e preenchido. É igualmente importante que eu lhe comunique as minhas necessidades e os meus limites através da linguagem pessoal e sem julgamentos. Ou seja, o que eu preciso e sinto.

    “- Gostas muito quando a mamã se deita aqui contigo um bocadinho, não é? Eu também. Fazemos sempre muitas aventuras e aproveito para te dar muitos miminhos.

    – Sim beijinhos e octonautas também.

    – Sabes aquele saquinho que temos e enchemos com beijinhos todos os dias? Quando não estou ao pé de ti, podes sempre ir buscar um beijinho se precisares. A mamã tem de ir tratar de algumas coisas para não se deitar muito tarde. Podíamos encher o saquinho dos beijinhos e enquanto a mamã fazia as suas coisas tinhas aqui os meus beijinhos. O que achas?
    – Sim mas temos de encher muiiito muito o saquinho.
    – Pois é, vamos dar beijinhos até ficar cheio, quando estiver cheio avisas a mamã, boa?
    – Sim!”

    CHUAC CHUAC CHUAC CHUAC CHUAC CHUAC!

    Todos os dias após uma demonstração de exercícios variados e já de barriga cheia, eu ou o pai ficamos deitados com ele na cama durante 10 minutos (há dias que precisam de mais minutos do que outros e há dias em que nada funciona, normalmente quando ele está demasiado cansado e com o sono em atraso).

    Nesse tempo a dois, brincamos aos Octonautas, conversamos ou apenas enchemos o saquinho dos beijinhos. Depois disso, vou tratar de mim e das minhas coisas mas se ele precisar de mim, pode sempre chamar-me. Estou mesmo ali.

    É curioso, quando pensamos melhor, reparamos que mesmo nós pais não nos deitamos todos os dias da mesma maneira. Uns dias precisamos de televisão, outros de um bom livro, outros só queremos cair na cama. E quando vamos para a cama sabe mesmo bem adormecer com alguém que gostamos muito, não é?

    O meu filho pedir para eu ficar ao pé dele não é chato, é um grande reconhecimento da nossa relação. Ele querer só mais um bocadinho da nossa companhia não é desesperante, é fabuloso.

    Sinto-me feliz e até divertida com as desculpas hilariantes que ele inventa e toda a rotina adquiriu uma maior leveza e equilíbrio para os dois.

    E foi assim que devagarinho o sono foi aparecendo nos olhos do meu fabuloso menino.

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    QUANDO ELES ESTÃO PREPARADOS E NÓS NÃO

    O pequeno catita ia ter a sua primeira festa “deixa-me aqui, podes ir à tua vida e vem buscar-me daqui a 3 horas” com a variante que ele conhecia apenas através de um encontro breve mas muito divertido, a aniversariante.

    Chegados à festa ele percebeu que havia uma alteração inesperada no casting, afinal aqueles miúdos não eram os colegas da escola. “Mãe, onde estão os meus amigos?” Ai, que isto não vai correr bem. “Estes são meninos que ainda não conheces mas pode ser uma boa oportunidade para os conheceres. Anda, vamos ver o espaço e logo me dizes se queres ficar aqui ou não. Pode ser?”.

    Nestes momentos totalmente novos, o pequeno catita precisa do seu momento azul. Isso, azul.

    O método LASEr tem por base quatro cores: vermelho, laranja, azul e verde. A cada uma delas estão associadas necessidades emocionais. O comportamento dos nossos filhos surge para nos mostrar que necessidade ou necessidades emocionais não estão a ser preenchidas. Como eles não conseguem verbalizá-las, expressam-nas pelo comportamento.

    Normalmente cada criança tem duas cores dominantes, sendo que em situações específicas as necessidades delas podem ser outras. Temos de estar atentos e receptivos para ler as pistas.

    O pequeno catita é dominantemente verde, tem uma grande necessidade de conexão e pertença, e vermelho pois tem uma grande necessidade de reconhecimento e significância. Ou seja, senti que para o ajudar naquele momento teria de manter a nossa conexão “mãe-filho” enquanto o ajudava a criar algum elo emocional com o espaço e lhe dava tempo para se ambientar, reconhecendo e validando o que ele estava a sentir.

    O espaço tinha muitas atividades giras, mostrei-lhe algumas salas e brincadeiras e expliquei-lhe com quem tinha de falar em caso de precisar de alguma coisa.

    Ele estava quase pronto. Sentia-lhe a vontade de correr e de ir explorar a crescer com o sorriso. Olhando-o nos olhos enquanto segurava na mão dele disse:

    “Vais viver muitas aventuras e aprender coisas novas, quando estiver na hora de cantar os parabéns estou aqui à tua espera”. É importante dar esta sequência de eventos para ele sentir segurança, foi o momento azul (segurança e conforto) que ele precisou para se afastar alegremente de mim e começar a brincar com quem não conhecia voando para longe de mim.

    Eu fiquei ali parada, a pensar que não me apetecia sair dali. Não estava preparada mas ele estava. E foi naquele momento que ele cresceu muito e eu também.

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    GOSTAR DOS MAUS PODE SER BOM

    Estás a ver o Peter Pan? Qual é o personagem que gostas mais? Perguntava a Avó Catita.

    Gosto de todos. Mas gosto mais do capitão Gancho!

    Mas o Capitão Gancho é mau!  Diz a Avó em choque.

    Eu gosto dos maus!” (acompanhado de sorrisinho malandreco).

    Eu também gosto dos “maus”. Os “maus” balançam as coisas. Arranjam aventuras para os “bons” serem heróis. Ajudam os “bons” a crescer e a ultrapassar as suas limitações. Os “maus” momentos trazem grandes dores de crescimento mas sem elas ficamos para sempre do mesmo tamanho. Às vezes estamos tão prontos para resolver tudo e tornar tudo “bom” para os nossos filhos que os privamos de uma grande prenda, passar por uma situação difícil e aprender com ela. É mesmo difícil assistir e não intervir. Instintivamente só os queremos proteger de tudo e vê-los a sorrir, mas é mesmo importante confiar. Confiar no ser humano que eles são e na sua capacidade de resolver, aprender e crescer. Se eu não deixar o meu filho falhar a entrega de um trabalho como vai ele aprender a responsabilidade? Se ele não se desiludir com um amigo que não era assim tão amigo, como vai aprender a superar uma desilusão?
    Nós não vamos estar sempre lá, em cada momento, em cada segundo da vida deles, eles precisam da sua própria caixa de ferramentas, das suas soluções únicas e dos seus pontos de vista especiais. O meu desafio é deixá-lo ter um mau momento e estar presente e disponível se ele precisar de mim. Estar lá num momento mau é bom. Estar ali e confiar enquanto ele cresce com os passos que ele decide dar pelo caminho que ele vai fazendo. É ensiná-lo a aceitar a Vida tal como ela é, com muitas oportunidades e desafios, com muitos Peter Pans e Capitães Gancho.

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