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August 2016

    QUANDO PERCEBES QUE ESTÁS A IR POR ONDE QUERIAS

    Gosto de andar de carro com o pequeno catita. Conversamos muito. Ouvimos músicas moderninhas na rádio enquanto fazemos coreografias idiotas comprometedoras socialmente ao nível de ser apanhado com o dedo no nariz no jantar de empresa. Gritamos “VERDE! VERDEEEEEE!” para os semáforos mudarem de cor e, para grande alegria do pequeno catita não é que eles mudam sempre! Quando o trânsito está parado-aguenta-aí-umas-boas-horas, inventamos profissões para as pessoas que estão aborrecidas no carro ao lado. “Olha mamã, a senhora! Aqui no carro vermelho! Médica de… de dinossauros, daqueles cheios de dentes. Assustadores… que comem feijão verde e iogurte de baunilha.”

    No meio da brincadeira, temos conversas mais sérias. Na última viagem, falou de um menino da escola que se zangava muitas vezes. Quando estava mesmo zangado, mordia. Expliquei-lhe que quando estamos muito zangados e somos pequeninos, às vezes não conseguimos lidar com tudo o que se passa cá dentro. Temos de treinar, como se treina andar de bicicleta. Perguntei-lhe o que acontecia com ele quando ele estava mesmo zangado, assim zangado pelo corpo todo. Zangado a deitar fumo. “Salto, mamã! Como fazemos juntos, assim saltinhos pequeninos para a zanga sair pelos pés. Às vezes não vou a tempo e atiro coisas mas depois falas comigo e sinto-me melhor. Ficas ali sentada ao pé de mim, à espera de falar… sobre as coisas como elas aconteceram.”

    “E eu? Quando eu estou mesmo mesmo muito zangada, o que é que eu faço?” Pausa dramática para me passarem “n” respostas pela cabeça.

    “Falas comigo”, respondeu calmamente.

    Nem sei explicar bem a felicidade que me invadiu a meio da rotunda. O sentir que estava no caminho que conscientemente defini como mãe e que a minha versão mais zangada não era um dinossauro cheio de dentes que refila mas uma mãe que fala e ouve. Mãe catita, estamos num caminho mesmo mesmo catita.

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    A GLÓRIA DE PERDER

    Férias catitas, férias cheias de jogos de tabuleiro em família para ajudar a passar as horas de maior calor.
    O pequeno catita perdeu o seu primeiro Jogo da Glória e ficou conscientemente a deitar fumo pelas orelhas.

    “- Querido, perder não faz mal. O importante é jogar e divertirmo-nos juntos, não é?
      – Então se não faz mal, perdes tu sempre, ok?”

    Por volta dos 4 anos começam a competir com tudo. “Eu vou acabar de comer primeiro!”, “Eu sou o mais rápido”, “Eu já fiz 5 anos e tu não!” , “O meu pai é maior do que o teu!”. Apesar de não compreenderem totalmente a noção de “ganhar” percebem que gostam de ganhar e, querem ganhar a TUDO. Se a criança tiver uma personalidade vermelha então, é TUDO x TUDO + um bocadinho de TUDO.
    O pequeno catita tem sorte ao jogo, pelo menos tive de esperar uns 15 Jogos da Glória até ele perder um. Queria trabalhar a noção de “perder” com ele mas acabei por trabalhar intensamente a minha.
    Em cada jogo, independentemente do resultado, fui reconhecendo o processo, o esforço de cada um e não apenas quem tinha sido o vencedor. Mesmo quando eu perdia (o que acontecia com alguma frequência) mostrava-lhe como me tinha divertido e como aquela ou a outra jogada tinham sido mesmo emocionantes.

    Paralelamente fiz jogos em que ele joga contra ele mesmo. Tentou chegar cada vez mais rápido até à árvore do fundo da casa, experimentou calçar os sapatos antes de tocar o despertador e outros mini desafios catitas. Foi assim que aos poucos percebeu que o importante é dar o nosso melhor e que se treinarmos com dedicação conseguimos sempre ir um pouco mais longe. Percebeu pela experiência e não porque lhe disse que era assim.
    Também fizemos alguns jogos em equipa em que todos nos unimos para chegar a um objectivo comum, o resultado depende da participação de todos e, a alegria final é de todos também. Foi uma forma de desmistificar o resultado e valorizar o processo.

    “Perdi, mãe. Não foi? Vamos jogar outra vez?” Desta vez não deitou tanto fumo pelas orelhas. Ufa.

    Bem devagarinho o pequeno catita vai percebendo que perder não é o fim do mundo mas uma oportunidade para começar tudo de novo. Vai dar-lhe jeito pela vida fora.

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