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QUANDO PERCEBES QUE ESTÁS A IR POR ONDE QUERIAS

Gosto de andar de carro com o pequeno catita. Conversamos muito. Ouvimos músicas moderninhas na rádio enquanto fazemos coreografias idiotas comprometedoras socialmente ao nível de ser apanhado com o dedo no nariz no jantar de empresa. Gritamos “VERDE! VERDEEEEEE!” para os semáforos mudarem de cor e, para grande alegria do pequeno catita não é que eles mudam sempre! Quando o trânsito está parado-aguenta-aí-umas-boas-horas, inventamos profissões para as pessoas que estão aborrecidas no carro ao lado. “Olha mamã, a senhora! Aqui no carro vermelho! Médica de… de dinossauros, daqueles cheios de dentes. Assustadores… que comem feijão verde e iogurte de baunilha.”

No meio da brincadeira, temos conversas mais sérias. Na última viagem, falou de um menino da escola que se zangava muitas vezes. Quando estava mesmo zangado, mordia. Expliquei-lhe que quando estamos muito zangados e somos pequeninos, às vezes não conseguimos lidar com tudo o que se passa cá dentro. Temos de treinar, como se treina andar de bicicleta. Perguntei-lhe o que acontecia com ele quando ele estava mesmo zangado, assim zangado pelo corpo todo. Zangado a deitar fumo. “Salto, mamã! Como fazemos juntos, assim saltinhos pequeninos para a zanga sair pelos pés. Às vezes não vou a tempo e atiro coisas mas depois falas comigo e sinto-me melhor. Ficas ali sentada ao pé de mim, à espera de falar… sobre as coisas como elas aconteceram.”

“E eu? Quando eu estou mesmo mesmo muito zangada, o que é que eu faço?” Pausa dramática para me passarem “n” respostas pela cabeça.

“Falas comigo”, respondeu calmamente.

Nem sei explicar bem a felicidade que me invadiu a meio da rotunda. O sentir que estava no caminho que conscientemente defini como mãe e que a minha versão mais zangada não era um dinossauro cheio de dentes que refila mas uma mãe que fala e ouve. Mãe catita, estamos num caminho mesmo mesmo catita.

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