Follow:
Monthly Archives

January 2017

    O ping-pong parental. A importância de saber ouvir os nossos filhos sem interromper.

    Na semana passada, uma amiga ligou-me para falar de alguma coisa muito importante que estava a acontecer na vida dela. Inesperadamente, o meu telemóvel fez uma coisa fantástica: não me deixou falar. Do outro lado, ela não ouvia absolutamente NADA do que eu estava a dizer. Estava tão entregue à conversa que não notava o silêncio que vinha do lado de cá. Eu, impedida tecnologicamente de fazer “bitaiting”, atirar opiniões, resolver o seu problema ou de começar vitoriosamente com um “se fosse eu”,calei-me e ouvi.

    Ouvi muito. Ouvi as questões que ela levantava, ouvi como sozinha, aos poucos, ia arrumando a cabeça e o coração e, ouvi enquanto encontrava as suas próprias soluções e aprendizagens.

    No final, ainda sem ideia nenhuma de que eu não tinha dito uma única palavra disse “Obrigada, estava mesmo a precisar de falar contigo. Foste espetacular!” Eu? Como? Apenas estando presente. Ouvindo ativamente, não para resolver um problema mas para servir de suporte ao processo do outro.

    Muitas vezes ouvimos, mas temos uma agenda escondida. Ouvimos para responder e não apenas para ouvir. Um ouvir Ping Pong que jogamos com os nossos parceiros, com os nossos colegas de trabalho e com os nossos filhos.

    O meu filho está a falar e eu a pensar no que vou dizer para ele ir lavar os dentes. Acabo de dizer uma frase e preparo a jogada seguinte. Penso na próxima resposta. Na bola que vou retribuir.

    Ouvir é um processo bastante ativo e poderoso. Uma ferramenta essencial para qualquer relação e crucial na parentalidade.

    Para ouvir ativamente o teu filho é essencial:

    – Manter o contato visual, para que ele se sinta visto e reconhecido.

    – Procurar estar neutro, sem julgamento e com uma mente curiosa.

    – Ser paciente e permitir os momentos de silêncio que lhe dão espaço para explorar os seus pensamentos e emoções.

    – Ter uma postura corporal receptiva, como inclinar um pouco o corpo para a frente, para ouvir melhor, ou ir fazendo pequenos acenos com a cabeça, incentivando-o a continuar.

    – É importante evitar interromper com as tuas soluções. Quando o fazes estás a passar mensagens como “O que eu tenho para dizer é mais importante”; “Eu resolvia isso em três tempos”; “Não tenho tempo para te ouvir”; “Tu não consegues resolver isto sozinho”. Se o teu filho quiser a tua opinião vai pedi-la, não te preocupes.

    – Tenta relaxar e seguir o seu ritmo. Entra, aos poucos, nos seus sapatinhos para ver as coisas de outro ponto de vista. Usa a empatia e dá constantemente feedback para manter a vossa conexão forte.

    Agora ouve. Ouve uma e outra vez. Ouve até estares lá para ele, como ele precisa. Só treinando deixamos o hábito de falar em modo Ping Pong, de jogar o tempo todo, para passar a ouvir verdadeiramente o que têm para nos dizer. Ser ouvido é fundamental para ganhar autoestima, algo essencial no Ping Pong da vida.

     

    Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids
    Share

    Quando o outro lado está “do contra”

    Nestes últimos dias tenho tido um desafio informático daqueles. O scroll, em tudo que é programas do meu computador, está com personalidade toddler e só vai para onde ele quer ir. Eu quero ler um artigo, plim, põe tudo para cima. Quero desenhar uma ilustração, plim, desaparece a folha do ecrã. Tem sido um desafio à minha necessidade de controlar o que estou a fazer e, como o estou a fazer, para além de demorar o triplo do tempo a fazer qualquer mini tarefa.

    Curiosamente, no meio de tudo isto, comecei a encontrar formas alternativas, nunca antes experimentadas, para conseguir ir trabalhando. O que me lembrou dos malabarismos circenses que faço com o pequeno catita para lhe vestir o pijama quando ele só prime a tecla “NÃO”. Se insisto no “veste” ele retribui com o “não veste”. É um jogo que pode demorar horas, criar muita tensão e minar a nossa relação. O que se passa é que o meu filho está em modo “counterwill” (em tradução livre catita está “do contra”), um conceito desenvolvido pelo Dr. Gordon Neufeld, referente à utilização de um instinto inato de reagir com resistência quando a criança se sente controlada, manipulada ou separada. Sim, mas é só um P-I-J-A-M-A. Para ela não. Para ela é um impasse que disparou o seu alarme de resistência e de auto-preservação. Quando me dizem como devo pensar sinto o mesmo alarme a disparar a altos berros.

    Apesar de ser bem desafiante numa série de alturas (acho que está super ativado quando é hora de sair de casa para a escola), é muito útil; protege a criança de indicações de pessoas com quem não tem conexão (fixe quando um estranho qualquer lhe dá ordens com intenções menos positivas), ancorando o papel dos pais como cuidadores e orientadores.

    O “do contra” é também importante porque ajuda a definir o “eu” da criança / adolescente como algo distinto do Outro: Estas são as minhas opiniões, os meus gostos, os meus valores, as minhas perspectivas. Vai ser fundamental para o distanciar do que não concorda e do que colide com seus valores base.

    “Ah. Pois. Mas eu tenho uma relação cheia de conexão com o meu filho e ele desafia-me até eu ficar em ponto rebuçado.” Sim, a mim também. Há dias em que os enchemos de “tens que”, “devias” sem deixar espaço para os “eu quero” deles. Essa falta de espaço para o seu “eu” se expressar origina uma onda de resistência potenciada pela imaturidade da criança. “Então faço tudo o que ele quer, não?” Nope. O desafio é manter a ligação de cuidador com a criança, enquanto contornamos o impasse da resistência, que não devemos levar de todo a peito. A forma como o guias em plena resistência, sem atropelar o seu “eu”, vai permitir-lhe crescer sabendo como o seu “eu” é mesmo importante.

     

    Perante uma grande resistência do teu pequenino, lembra-te de:

    Aumentar a conexão, esta é a chave para desbloquear a resistência. Olha-o nos olhos e respira fundo para te manteres sereno.

    Ter presente que ele não te está a desafiar só para te chatear, está com o scroll preso algures.

    Não usar frases mandonas, nem os “se não fazes não sei o quê, já não vais não sei aonde até teres 18 anos” (consequências só lógicas, fugir das ameaças e das recompensas) só o vão deixar ainda mais resistente.

    Dar-lhe espaço para manifestar a sua opinião e ideias. Quando são ouvidos querem ouvir.

    Fazer um intervalo se já tiver tudo muito enrolado (podes dizer-lhe que voltas daqui a nada para falarem outra vez sobre o assunto) ajuda a baixar a resistência e, a olhar para a situação com uma nova perspectiva.

    Atribuir responsabilidade adequada à idade (vai ajudar a criança a sentir-se útil, vista e no comando da sua vida).

    Se correu tudo mal e acabou numa luta ninja de vontades, está tudo bem. Exprime o que sentes, rebobinem e façam restart ao computador. Às vezes é mesmo disso que estamos todos a precisar.

     

    Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids

     

     

    Share