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June 2017

    EU NÃO SOU UMA MÃE PERFEITA, SOU UMA MÃE PERFEITAMENTE REAL.

    “Muitas vezes perco a paciência e…grito.”; “Leio os artigos todos e adoro, mas quando estou zangada não consigo aplicar nada.”; Adorava ser uma mãe perfeita como tu!”; “Sinto-me culpada por não conseguir fazer as coisas de outra forma.”; “ Sinto-me uma mãe-amígdala. Sempre em modo reativo.” Estes são alguns dos desabafos sinceros que me chegam todos os dias. Muitos pais sentem que não são o suficiente, que não fazem o suficiente e que há sempre uma mãe por aí, que para além de ser maravilhosamente consciente, ainda cozinha comida super-bio-saudável-sem-glúten enquanto faz agachamentos de uma forma mindful e, que nunca na vida se zanga ou fica despenteada. Pois. É apenas um mito urbano. Queridas Mães e Pais que me seguem de uma forma muito catita, tenho uma coisa muito, MUITO importante para vos dizer. Preparados? Aqui vai: eu faço muitas, tremendas, idiotas, compridas, peludas e gritantes ASNEIRAS.

    Nos dias em que não as faço para fora, posso fazê-las para dentro, na forma de julgamentos não-foste-uma-mãe-maravilha-hoje.

    Cada passo que dou no sentido de ser uma mãe mais consciente, só é dado porque uma asneira se transformou numa aprendizagem. Errar é o primeiro passo para aprender. E na parentalidade o mais importante é o que aprendemos com a relação, com o nosso filho e principalmente connosco próprios.

    Se eu fosse uma mãe monstruosamente perfeita iria perder a maravilhosa oportunidade de ser uma mãe real. De mostrar todos os dias ao meu filho como aprendo com os erros, como peço desculpa, como não sei tudo, como preciso de ajuda, como perco a paciência, como resmungo quando tenho sono e… como sou humana.

    Aqui não há notas, quadros de honra ou autocolantes por sermos “bons” pais. Há a Vida. Há o dia a dia, onde todos damos o nosso melhor com as ferramentas que temos ao nosso dispor. Se sentirmos que não são suficientes, podemos sempre fazer um upgrade das nossas ferramentas. Vai ser muito útil ao longo do caminho.

    A parentalidade não é limpinha, é feita de muitos momentos enrolados num gigantesco novelo com nódoas de comida, lama do jardim e óleo da bicicleta.

    É um grande caminho a ser percorrido para dentro e para fora. Passo a passo, asneira a asneira que nos leva, com consciência, aos pais que queremos ser.

    Este caminho não é uma autoestrada. É um caminho de terra, com paisagens maravilhosas, zonas áridas e outras mais pantanosas. Em cada pedacinho temos a oportunidade única, se tivermos disponíveis para isso, para aprender. Para nos desmancharmos como uma torre de lego e começarmos tudo outra vez. Mas há peças… ai… que nos custam tanto a largar. Comportamentos e pensamentos que teimam em ficar agarrados. Ainda bem que temos um caminho comprido pela frente, assim temos tempo, de nos dar tempo, para ir largando o que já não faz sentido. E tempo para aprendermos a ser tolerantes e compassivos connosco.

    Lembras-te quando o teu filho começou a tentar andar? Quantas vezes foi de rabo ao chão? Quantas vezes se levantou e tentou outra vez? Sabes o que o movia? Era o potencial que ele tinha dentro dele para andar. E, sabes o que vejo em ti? Potencial. Muito. Potencial para crescer. Potencial para caminhar.

    Tens agora um caminho aberto à tua frente. Anda, eu ajudo no primeiro passo. Diz-me, que mãe/ pai queres ser?

     

    Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids
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    COMO FICAR ON QUANDO TUDO ESTÁ OFF

    O pequeno catita estava esparramado no chão. Rodeado de tudo e mais alguma coisa, estava a inventar mais uma das suas fabulosas máquinas.

    Ele imagina máquinas para tudo. Já inventou uma máquina-come-tudo, para levar a comida à boca de forma a não cansar os braços. Uma maquineta-diz-diz que fala por nós quando não estamos para aí virados. E uma, que tem um lugar especial no meu coração, a maquineta-toma-lá-mais-um-fim-de-semana, que produz fins-de-semana à vontade do freguês.

    Ele estava tão inventivamente concentrado na sua nova construção que ao receber um “Hora de dormir!” retribuiu em tom metálico e zangado “Nem penses. Não é nada hora de dormir.” Não era bem isso que eu queria ouvir. Era mais um imediato “Claro que sim, mamã!” Pois, mas é claro que isso não ia acontecer. Ainda mais com a rapidez que eu gostaria.

    Voltei a referir que estava na hora de ir dormir e expliquei o quanto era importante para o nosso corpo descansar e dormir várias horas seguidas. Outra tacada do outro lado: “Não faz mal. Amanhã chego à escola várias horas depois.” Já referi que o pequeno catita prima pela capacidade de argumentação?

    Após alguns segundos de silêncio, seguiu-se uma explosão de raiva acompanhada por peças voadoras. Como estava tudo dentro das normas de segurança europeias, assisti pacientemente. “Nunca mais vou construir nenhuma máquina. NUNCA MAIS!” gritou. À medida que as peças começavam a cair no chão, as lágrimas começavam a cair também. Baixei-me. Respirei fundo e abracei-o. “Chora. Chorar faz bem. Chora tudo o que precisares” sussurrei ao seu pequeno ouvido.

    Alguns minutos mais tarde, sem mais nem menos, levantou-se e foi lavar os dentes.

    “Hora da história!!!” gritou feliz da cama. Totalmente admirada com tal mudança repentina, fiquei momentaneamente colada ao chão da sala.

    Espera aí. Mas ele não estava danado e preferia arrancar um dente a ir para a cama? Senti-me como se tivesse a fazer zapping. Carreguei no botão e imediatamente mudei de história.

    Afinal o que aconteceu? O que mudou o chip dele?

    Não foi certamente nenhuma maquineta-maravilha-vai-já-para-a-cama. Na verdade, percebi depois, foi algo bem mais simples. T-E-M-P-O. Eu esperei e dei tempo ao pequeno catita para digerir a frustração que surgiu por ter de largar a sua maquineta. Dei tempo para percorrer os caminhos, puxar as alavancas, rodar as roldanas, até estar pronto para passar do modo inventar para o modo descansar.

    O processo é igual para nós. Sempre que algo nos surpreende, aparece em forma de obstáculo, frustração, má notícia, revés ou simplesmente não acontece como gostaríamos, precisamos de nos dar tempo. Precisamos de passar pelo “Não, isto não está a acontecer”, pelo “Porque é que isto me aconteceu a MIM?”. Pela fase de tentar arranjar uma solução de meio termo “E se eu..” até estarmos preparados para receber a tristeza, que estava desde o início à espera para entrar.

    Ai. Quando ela chega… Quando nos bate em cheio no peito e a aceitamos. Só aí, aceitamos o que aconteceu. É daqui que tudo cresce. Deste pequeno grande passo. Mas só cresce se o caminho da frustração à aceitação for percorrido, passo a passo, emoção a emoção.

    Foi esse caminho que o pequeno catita teve tempo para percorrer. Tempo para a negação (“não são horas de dormir”) e para a raiva. Tempo para a negociação (“amanhã chego mais tarde à escola”) e para a tristeza. Todas essenciais no caminho da aceitação, no corpo e no coração.

    A ordem porque passam por nós não interessa. Interessa deixá-las passar. Interessa dar-lhes tempo e, acima de tudo dar-nos tempo, para a seu tempo, estarmos preparados para dar o passo que precisamos.

    Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids
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