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MANDAR O MEDO POR ÁGUA ABAIXO

Na semana passada o medo invadiu a nossa casa. O pequeno catita tinha medo de fazer cocó e eu tinha medo que ele não fizesse. Depois de uma semana doente, o intestino não estava a funcionar como de costume. Após uma ida à casa de banho mais difícil, o medo instalou-se para ficar.

Desde aí, por muitas explicações conscientes que desse, por mil e uma dicas médicas e outras tantas mézinhas variadas, nada funcionava. Ele não queria ir à casa de banho. Ponto.

A cada dia que passava o medo crescia dentro dele. A cada dia que passava, o medo crescia dentro de nós. Eu conseguia sentir como ele estava sempre assustado, como se sentia sempre encurralado, e isso, estava a dar cabo de mim.

Para nos ajudar neste processo, tentei descobrir mais sobre o medo. Uma das coisas que já sabia, é que deve ser ouvido e respeitado. Mesmo que nos pareça um medo idiota e sem sentido, tal como qualquer emoção, deve ter espaço para existir. É fundamental aceitar o que está a ser vivido do outro lado, ouvir sem tentar mudar nada. Dar tempo para o medo, ao seu ritmo, dar lugar à ação.

Várias vezes engoli o meu medo. Lembro-me que não tinha espaço para ele. Ficava presa nos olhos cheios de expectativas dos outros e enfrentava o que lá vinha. Mas a força motora não vinha de mim, vinha do outro. Eu não estava a utilizar os meus próprios recursos para lidar com a situação, e esta dependência externa apenas aumenta o nosso medo e o nosso sentimento de incapacidade.

O medo é uma antecipação negativa de alguma coisa, só o próprio a pode transformar numa antecipação positiva. Só o próprio pode dar o primeiro passo, de dentro para fora.

Tinha de ser o pequeno catita a decidir que estava preparado e munido dos recursos necessários para enfrentar o que o assustava.

Muitas pessoas encaram o medo como algo muito negativo, mas ter medo é saudável e natural. Coloca o nosso corpo em alerta para quando temos de dar uma resposta rápida a nível físico e mental. Também existem os outros medos que nos limitam, congelam e aterrorizam. Estes devem ser igualmente respeitados, e devem ser olhados como mensagens ou pedidos de ajuda dos nossos filhos.

Segundo a Isabelle Filliozat, é importante dar as informações necessárias à criança sobre o que se está a passar. No meu caso, expliquei ao pequeno catita o processo digestivo de uma forma simples e divertida. Mostrei-lhe como funcionavam todos estes “canos” dentro de nós. Também lhe perguntei o que poderíamos fazer para ele se sentir mais seguro na ida à casa de banho. Do que é que ele precisava? Surgiu uma lista de coisas: os vários octonautas na beira da banheira a olhar para ele, a música do Despacito a tocar em loop e um banquinho colorido para ele colocar os pés enquanto estava sentado na sanita. Segundo ele, este era um “plano perfeito”.

Por vezes, quando confrontado com a iminência de ter de ir à casa de banho a raiva subia-lhe à ponta do nariz. Eu ficava lá, com ele. Presente. O medo e a raiva andam muitas vezes de mão dada. O medo engolido gera raiva. Para transformar o medo, a raiva tem de conseguir vir cá para fora e tem de ter espaço para o fazer.

Filliozat refere algumas das fases fundamentais nesta viagem através do medo onde devemos respeitar sempre o ritmo dos nossos filhos (e o nosso); Primeiro, é essencial aceitar o medo. O que é, como é, sem tentar mudá-lo. Apenas compreender e receber o medo que o nosso filho tem.

Depois, ajudar a criança a aceder aos seus recursos internos. Para isso, contei-lhe de outras vezes em que ele tinha ido à casa de banho, uma delas até tinha sido num avião em pleno voo! Juntos tivemos a tentar adivinhar quantas vezes fez cocó desde que nasceu e descobrimos que, na verdade, ele era um grande especialista no assunto. Relembrámos também outras situações em que ele também teve medo, as ferramentas que usou na altura, e como se sentiu orgulhoso no final com a sua conquista.

Mais tarde, falei de mim. Das coisas que me assustaram e principalmente das vitórias e aprendizagens a que estas deram origem. A nossa experiência com o medo acolhe a deles. Inspira-os e ajuda-os a não se sentirem sozinhos ou tontos com as suas inseguranças. Somos todos iguais. Temos TODOS medo de alguma coisa.

A regra mais importante? Não devemos insistir. A não ser que seja uma situação de vida ou de morte. E não era. Ele tinha de decidir fazê-lo por ele, e não para me fazer a vontade. Ele tinha de se sentir livre para fazer essa escolha. Aí está o poder. Aí reside a nossa força. Aí o medo que inibe transforma-se no medo que estimula à ação.

Um dia, estava na sala e comecei a ouvi-lo cantarolar o Despacito. A música vinha da casa de banho. Alguns minutos mais tarde chamou-me. Quando cheguei estava sentado, olhou-me determinado e disse “Mãe quero tentar. Vou confiar em mim e em ti e vou fazer força.” Estava pronto. Era agora.

Alguns segundos depois, puxávamos o autoclismo em tom de celebração. Se eu tivesse “confetti” tinha feito um pequeno carnaval naquele instante. É muito importante que a criança sinta orgulho na sua vitória de forma a fortalecer e consolidar a sua confiança na vida, e em si mesmo.

E foi assim… tal como apareceu, o medo do meu pequeno catita desapareceu pelo cano.

Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids
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