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Confiança

    CONTAR A NOSSA HISTÓRIA CONTA MUITO!

    No dia 16, eu e o pai catita fizemos 10 anos de namoro. Para comemorar a data decidimos criar um painel da história da nossa família.

    O pequeno catita, como qualquer outra criança, tem uma grande necessidade em saber de onde veio, o que o ajuda a definir para onde vai.

    Ele delira com as histórias do “quando eu tinha a tua idade…”, com as espatifadelas do mini-pai catita mais-arranhão-menos-arranhão na sua bicicleta, com as aventuras da mini-mãe nas aulas de ciências. Com todos os medos e desafios que cada um enfrentou, tão semelhantes aos que agora ele está a viver.

    “No meu tempo não havia televisão. Tu tens é muita sorte!” não conta como história construtiva e inspiradora. Só os pormenores, as personagens tão conhecidas, os problemas, aprendizagens e as emoções experienciadas constroem a riqueza e profundidade da mensagem.

    Contar histórias de família tem inúmeros benefícios. Ajudam as crianças a fazerem relatos mais ricos e pormenorizados do seu dia a dia, a compreenderem e identificarem os pensamentos e as emoções do outro lado, favorecem o crescimento de uma autoestima saudável, e de uma noção mais forte do seu “eu”. As suas identidades ficam mais definidas, resultando numa maior resiliência e capacidade de lidar com os desafios da vida.

    Estas histórias criam fios invisíveis que ligam a criança a todos aqueles que são importantes na sua vida, criando uma rede robusta onde a criança se sente amparada e protegida.

    O painel chegou a semana passada, e o pequeno catita não conseguia tirar os olhos dele. De certa forma lembrou-me o poder hipnotizante das pinturas rupestres, ou dos hieróglifos do Egito. Desde sempre que os seres humanos se juntam para passar histórias de geração em geração. A nossa estava impressa em PVC, e era mais na onda da banda desenhada, mas o poder da história era claramente visível nos seus pequenos olhos fascinados.

    “Ó Mãe e aqui? Foi onde conheceste o pai?” Apontava entusiasmado com o seu dedinho para o desenho do primeiro encontro.

    Contámos várias vezes cada episódio. VÁRIAS, várias vezes…

    No pedido em casamento no Japão, ele descobriu que a mãe tem dificuldade em responder rapidamente a perguntas difíceis, daquelas que podem mudar a vida de uma pessoa. Desde aí, responde “vou pensar um bocadinho” antes de responder a perguntas que ele acha que merecem o seu tempo.

    Descobriu que a mesma música que ainda hoje cantamos para ele, era a música que o embalava ainda estava ele na minha barriga, o genérico do “Conan, o rapaz do futuro” (o pai catita tem uma “ligeiríssima” adoração pelo Japão).

    Apercebeu-se que gostar de uma pessoa é crescer com ela, e isso leva tempo, como todas as coisas que valem mesmo a pena.

    E descobriu que a vida dele é uma enorme tela, onde vão nascer muitas memórias maravilhosas que um dia ele também vai contar a alguém, muitas e MUITAS vezes.

     

    Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids
    
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    REGRAS PARA SER FELIZ

    Finalmente chegou o dia da reunião de família. Fazemos sempre uma, quando temos um assunto importante a tratar ou simplesmente quando nos apetece falar em modo reunião de condomínio catita e votar em qualquer coisa.

    Esta era uma reunião fabulosa-especial, era a reunião onde iriam ser definidas as regras da casa.

    Durante uma semana, cada membro da família, tirando o gato, tinha de pensar em duas regras importantes para a felicidade e bem-estar da nossa família. Estas seriam depois apresentadas e votadas na reunião pelos restantes membros. Após a reunião, seriam afixadas com lugar de destaque no frigorífico as “Regras da Casa Catita”.

    O pequeno catita, em grande euforia, apresentava as suas duas propostas a serem votadas. “Número 1: Não nos podemos magoar uns aos outros, no corpo nem no coração.” Fiquei um bocado atrapalhada-feliz com aquela primeira regra, ao pé das minhas a dele era muito mais madura e profunda. Tinha tantos níveis implícitos do que tentamos, apesar dos mais variados trambolhões, respeitar nele e em nós… Tinha empatia, cuidado com o outro, noção de que o coração se magoa tanto ou mais do que o corpo… Pensei que em vez de regra da casa, devia era ser regra do Mundo.

    Sem qualquer tipo de dúvida, a regra número 1 foi aprovada por unanimidade!

    “Número 2” gritava entusiasmado “Respeitar o tempo e o trabalho de cada um.” Ora bem, quem és tu e onde está o meu filho?! Os miúdos têm esta característica fabulosa de nos surpreender. Desde sempre que lhe explico como é importante termos o nosso tempo, darmos tempo e respeitarmos os outros no que estão a fazer. Refiro a importância de passarmos tempo sozinhos, de estarmos na nossa própria companhia, e de fazermos o que nos entusiasma para carregar a nossa pilha interior. Ele parecia não ouvir NADA do que lhe estava a dizer. E do nada, vem a regra número 2 cheia de respeito e consideração pelo outro. Foi neste momento, que pensei em dizer que o gato tinha comido o meu TPC das regras.

    Seguiu-se o pai catita com a regra número 3 “Todos os dias, passar 20 minutos em família.” Não temos todo o tempo do mundo, mas temos aqueles 20 minutos. Até podem ser passados no carro parados no trânsito a fazer coreografias idiotas com as músicas que estão a dar na rádio. Ou a dobrar os lençóis da cama, enquanto o pequeno catita mergulha animado por baixo deles. São 20 minutos em que estamos lá todos, juntos. Totalmente presentes.

    Regra número 4 “Não podemos ir dormir chateados uns com os outros”. Esta regra foi a única que definimos quando eu e o pai catita começámos a viver juntos. Nos dias em que ainda estávamos chateados na hora de dormir era MUITO incómoda, mas é tão importante para os sentimentos e pensamentos enrolados não crescerem dentro de nós como ervas daninhas que, aos poucos, nos separam um do outro. É uma espécie de restart do computador, em vez de levar a noite toda com um murro no estômago e vontade de morder em alguém. Antes de dormir, tínhamos de falar e resolver a situação. Ou pelo menos dar o primeiro passo, ou o primeiro abraço.

    Já eram quatro as regras aprovadas em família. A regra 5, surge de uma antiga e acarinhada tradição cá de casa. “Fazer uma refeição na mesa e uma no sofá, sempre juntos.” Ora na mesa, ora acampados no sofá com tabuleiros. É a nossa versão de pic-nic na sala. O importante é estarmos todos JUNTOS e a conversar!

    Regra número 6 “Contar sempre as coisas como elas aconteceram” . O ano passado, percebi que o pequeno catita não me contava filme todo. Usava uma versão trailer dos acontecimentos com os ingredientes que achava pertinentes e úteis para a sua versão. Para o ajudar a ser mais claro na sua comunicação e versão dos factos, inventei o jogo Contar as coisas como elas aconteceram”, que vai trabalhando de uma forma divertida o primeiro passo da comunicação não-violenta, a observação sem julgamento. Olhar com olhos de polícia para os acontecimentos e, apenas referir o que foi visto e ouvido. Para além do ajudar a ser mais objectivo e verdadeiro, trabalha a naturalidade de nos contar o que se passa na vida dele, criando e fortalecendo o canal de comunicação. Esta regra estendia-se agora a toda a família, por isso os “tu nunca lavas a loiça” echegas sempre atrasado/a” iriam ser substituídos por observações neutras que promovem o diálogo e não o ping-pong de acusações.

    A reunião acabou e todos se sentiam entusiasmados com as novas regras. Nos dias seguintes, perante alguma situação menos consciente, o pequeno catita referia que cá em casa cumprimos as regras, e apontava para o frigorífico. Sabes, quando as crianças se sentem parte do processo a sua vontade de colaborar é gigantesca porque sentem-se vistos, reconhecidos e ouvidos. Sabem que contam, e que nós também contamos com eles e com os seus pequenos dedinhos para nos apontarem o caminho para as regras mais importantes, as regras que nos fazem felizes.

     

    Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids
    
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    QUANDO AJUDAR NÃO AJUDA

    Era fim do dia e eu estava a ajudar o pequeno catita com os seus trabalhos de matemática da primeira classe. Mesmo no final dos trabalhos, apareceu o desafiante exercício 5 da página 14, enquanto o pequeno catita lutava para chegar ao resultado sozinho, eu mordia a língua para não lhe dar a resposta certa.

    A cada minuto que passava, contorcia-me mais na cadeira. Era tão fácil. Tão óbvio. A solução estava mesmo ali. Só precisava dizer o resultado, e os trabalhos estavam acabados.

    Uma parte de mim gritava para ter razão, para dar a resposta certa e durante 2 segundos ficar ofuscada com o holofote do “eu é que sei”. A outra parte, só queria ficar pacientemente calada, e dar-lhe tempo. Era de tempo e confiança que ele precisava para escrever, apagar, pensar, errar e tentar outra vez. Precisava de sentir que estava tudo bem, que eu confiava nas suas capacidades e que estava ali para o apoiar. Só assim seria possível aprender, descobrir e ganhar confiança em si próprio e nas suas decisões.

    Sabes, sempre me disseram o que fazer, como fazer. Instruções e mais instruções da forma “certa” de viver a Vida. A comida certa, a roupa certa, a decisão adequada. Tudo era feito com muito amor e com as melhores intenções. Oferecido para me proteger e ajudar a ser uma “boa” menina. Mas na verdade, não ajuda nada. Tira-nos a nossa capacidade natural de caminhar pelo nosso pé. Perante qualquer pequena decisão que temos de tomar, sentimos que temos de consultar os pais, os amigos, a ajuda telefónica e meia dúzia de pesquisas no Google. Sentimos que a resposta está sempre fora de nós, e não dentro, o que nos tira um enorme poder e autonomia. Simultaneamente, se não conseguimos decidir, não somos capazes de lidar com decisões erradas. Como a decisão é sempre do outro, excluímos o nosso papel em todo o processo, o que compromete muito a nossa responsabilidade pessoal.

    Ficamos à deriva, à espera da opinião mais acertada, ou da pessoa mais assertiva. E às vezes a pessoa mais assertiva, não está NADA certa.

    Estamos sempre danadinhos para resolver os problemas dos outros. Para nos sentirmos úteis e importantes, necessários e admirados. A maioria das vezes, quando estamos a ouvir os problemas dos outros, disparamos mil e uma soluções milagrosas; “Tu devias…” “Se fosse eu…” “É muito simples…” Parecem ajudar, mas não ajudam. Dizem “tu não és capaz de chegar lá sozinho”. E, quando o dizemos muitas vezes, o outro lado acredita. Aí tem duas opções, ou rende-se, ou revolta-se. Nenhuma delas reforça, de todo, a qualidade da relação entre pais e filhos.

    Eu sei que, tal como eu, amas o teu filho. E também sei, que é tão difícil transformar esse amor num comportamento amoroso para com ele. Há tanto que se mete no caminho… as nossas expectativas, a nossa infância, os nossos medos e os medos que temos em relação ao seu futuro. Os outros, as suas opiniões e olhares críticos. As nossas constantes incertezas de que estamos a fazer a coisa certa… de que estamos a ser “bons” pais.

    Era de tudo isto que eu me estava a aperceber, enquanto mordia a língua e travava a solução do problema de matemática. Apercebia-me de que os processos e as aprendizagens são muito mais importantes do que os resultados. E, que a minha solução pode ser certa para mim, mas não ser certa para o outro. Sou eu que lhe devo dar a possibilidade e a confiança para encontrar a “sua solução”. Sou eu que devo acreditar nele, para que ele possa acreditar também.

    É impressionante como quando estamos disponíveis, podemos com um pequeno exercício da primária, aprender tanto sobre a matemática da Vida.

     

    Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids
    
    

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    FRASE CATITA

    TU conheces o teu filho desde o primeiro momento. Reconheces quando o choro é de fome, ou de cair para o lado de sono. Sabes qual é a sua comida favorita, e a aquela que nem disfarçada entra na boca. Sabes o que o assusta até à ponta dos cabelos, e o que o faz sorrir até à ponta dos dedos dos pés. Sabes como lhe dar colo, e como dar-lhe o espaço que ele precisa. Tu tens o maior, e mais completo manual de parentalidade do teu  filho, dentro de ti. Confia.

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    Será que as outras mães são mesmo melhores do que eu?

    Alguém parece ter inventado uma lista de qualidades e habilidades que se deve ter para ser uma ”boa mãe”. Nesta lista infindável, para além de saber cozinhar paleo-chic-bio-gourmet, costurar, fazer os mais variados DIY dignos de uma revista de decoração. Ir ao ginásio com regularidade, ensinar os filhos a serem extremamente precoces numa área qualquer. Levar os miúdos à piscina e sair de lá maravilhosa, e não como alguém que acabou de sair vestida da sauna. Ser capaz de apanhar todas as promoções da história em versão “extreme couponing”. Encadernar primorosamente os livros da escola. Identificar TODO o material com dezenas e dezenas de etiquetas, repetindo dezenas e dezenas de vezes o nome dos pequenos catitas… (depois desta leva do regresso às aulas, em que perdi a conta das vezes em que escrevi ”Guilherme”, cheguei à conclusão que era bem mais fácil ter-lhe chamado “Ivo”).

    Ser fabulosa a ajudar as crianças com os trabalhos de casa, brincar pelo menos 30 minutos por dia com eles, enquanto se faz uma tarte veggie e meia dúzia de agachamentos. Ou seja, resumindo “a lista”, é fundamental trabalhar, ser bem sucedida, uma inspiração para tudo e para todos, dormir no máximo umas 5 horas e acordar cheia de energia. Basicamente, é ser um daqueles copos da minha infância, um sempre em pé.

    Quando não são os outros que nos avaliam com tamanha exigência, somos nós. Aliás, nós somos a nossa maior crítica, sempre na primeira fila a apontar o dedo. No entanto, parecemos ignorar o importante facto de todos os dias estarmos lá, a dar o nosso melhor.

    Quando mães exaustas me perguntam “Estou a fazer tudo bem?” só me apetece… dar-lhes colo. Somos tão pouco tolerantes connosco. Exigimos tanto. Carregamos um peso tão grande. Queremos tanto fazer a coisa certa. Sempre.

    A parentalidade é um caminho. Não há escolhas certas ou erradas. Existem as que nos levam mais perto de onde queremos chegar, e as que nos fazem dar umas voltas à rotunda.

    Cada um faz o seu caminho, tal como na vida. Se o meu filho não é igual ao teu, porque é que a minha forma de lidar com ele deveria ser igual à tua? Não haverá uma forma só nossa de sermos felizes? Não haverá uma forma só nossa de sermos mães?

    São esses caminhos que cada um tem de descobrir. Quando largamos a lista, o peso, a expectativa, o caminho abre-se, passo a passo, lágrima a lágrima, sorriso a sorriso.

    Temos todas muitas dúvidas e medos, desde o primeiro momento. Achamos todas que a mãe que está ao nosso lado, é melhor do que nós, sabe mais do que nós, vale mais do que nós. Mas sabes, aos olhos do teu filho tu és a melhor mãe que ele poderia ter, só pelo simples facto de seres TU a mãe dele.

     

    Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids
    
    

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    EU NÃO SOU UMA MÃE PERFEITA, SOU UMA MÃE PERFEITAMENTE REAL.
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    COMO FICAR ON QUANDO TUDO ESTÁ OFF

    O pequeno catita estava esparramado no chão. Rodeado de tudo e mais alguma coisa, estava a inventar mais uma das suas fabulosas máquinas.

    Ele imagina máquinas para tudo. Já inventou uma máquina-come-tudo, para levar a comida à boca de forma a não cansar os braços. Uma maquineta-diz-diz que fala por nós quando não estamos para aí virados. E uma, que tem um lugar especial no meu coração, a maquineta-toma-lá-mais-um-fim-de-semana, que produz fins-de-semana à vontade do freguês.

    Ele estava tão inventivamente concentrado na sua nova construção que ao receber um “Hora de dormir!” retribuiu em tom metálico e zangado “Nem penses. Não é nada hora de dormir.” Não era bem isso que eu queria ouvir. Era mais um imediato “Claro que sim, mamã!” Pois, mas é claro que isso não ia acontecer. Ainda mais com a rapidez que eu gostaria.

    Voltei a referir que estava na hora de ir dormir e expliquei o quanto era importante para o nosso corpo descansar e dormir várias horas seguidas. Outra tacada do outro lado: “Não faz mal. Amanhã chego à escola várias horas depois.” Já referi que o pequeno catita prima pela capacidade de argumentação?

    Após alguns segundos de silêncio, seguiu-se uma explosão de raiva acompanhada por peças voadoras. Como estava tudo dentro das normas de segurança europeias, assisti pacientemente. “Nunca mais vou construir nenhuma máquina. NUNCA MAIS!” gritou. À medida que as peças começavam a cair no chão, as lágrimas começavam a cair também. Baixei-me. Respirei fundo e abracei-o. “Chora. Chorar faz bem. Chora tudo o que precisares” sussurrei ao seu pequeno ouvido.

    Alguns minutos mais tarde, sem mais nem menos, levantou-se e foi lavar os dentes.

    “Hora da história!!!” gritou feliz da cama. Totalmente admirada com tal mudança repentina, fiquei momentaneamente colada ao chão da sala.

    Espera aí. Mas ele não estava danado e preferia arrancar um dente a ir para a cama? Senti-me como se tivesse a fazer zapping. Carreguei no botão e imediatamente mudei de história.

    Afinal o que aconteceu? O que mudou o chip dele?

    Não foi certamente nenhuma maquineta-maravilha-vai-já-para-a-cama. Na verdade, percebi depois, foi algo bem mais simples. T-E-M-P-O. Eu esperei e dei tempo ao pequeno catita para digerir a frustração que surgiu por ter de largar a sua maquineta. Dei tempo para percorrer os caminhos, puxar as alavancas, rodar as roldanas, até estar pronto para passar do modo inventar para o modo descansar.

    O processo é igual para nós. Sempre que algo nos surpreende, aparece em forma de obstáculo, frustração, má notícia, revés ou simplesmente não acontece como gostaríamos, precisamos de nos dar tempo. Precisamos de passar pelo “Não, isto não está a acontecer”, pelo “Porque é que isto me aconteceu a MIM?”. Pela fase de tentar arranjar uma solução de meio termo “E se eu..” até estarmos preparados para receber a tristeza, que estava desde o início à espera para entrar.

    Ai. Quando ela chega… Quando nos bate em cheio no peito e a aceitamos. Só aí, aceitamos o que aconteceu. É daqui que tudo cresce. Deste pequeno grande passo. Mas só cresce se o caminho da frustração à aceitação for percorrido, passo a passo, emoção a emoção.

    Foi esse caminho que o pequeno catita teve tempo para percorrer. Tempo para a negação (“não são horas de dormir”) e para a raiva. Tempo para a negociação (“amanhã chego mais tarde à escola”) e para a tristeza. Todas essenciais no caminho da aceitação, no corpo e no coração.

    A ordem porque passam por nós não interessa. Interessa deixá-las passar. Interessa dar-lhes tempo e, acima de tudo dar-nos tempo, para a seu tempo, estarmos preparados para dar o passo que precisamos.

    Artigo escrito originalmente pela Mãe Catita para a Uptokids
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    OS NEURÓNIOS SÃO UNS MACAQUINHOS DE IMITAÇÃO

    “Temos de ser o exemplo para os nossos filhos.”. “Eles aprendem com as nossas atitudes e respostas perante os desafios da vida.” “Sê o exemplo que queres ver no mundo”. Será que isso é mesmo assim? Ou é uma modernice hippie zen?

    Estou a fazer um curso sobre a Felicidade com Universidade de Berkeley e, meus amigos, há provas científicas. Agora quando estiverem a ser o exemplo para os vossos filhos sintam-se apoiados pela ciência. Está provado que temos uma capacidade inata de imitar os gestos e as expressões dos outros. Um mecanismo de mímica que nos permite aprender e compreender o que o outro está a fazer e a sentir. Quando observamos medo no outro, sentimos medo. Quando entramos numa sala onde todos riem à gargalhada, a gargalhada nasce dentro de nós. Ou seja, o corpo acompanha o processo do que está a acontecer à frente dele. Temos uma capacidade básica e biológica de simular, sentir e experienciar o que vemos nos outros.

    A nível neurológico, descobriram que quando vemos alguém a executar uma tarefa, os nossos neurónios motores e pré-motores são ativados como se estivéssemos realmente a fazer a tarefa e não apenas a ver. Fantástico, não? Será que também queimo calorias ao ver alguém fazer desporto intenso à minha frente? Hum…

    Mas então como posso trazer tudo isto para o meu dia a dia com os meus filhos? Este conhecimento pode trazer-te uma nova consciência para o que fazes e como o fazes. Uma nova consciência para como estão o teu corpo, as tuas emoções e expressões faciais quando falas com o teu filho e com os outros.

    Será que quando o teu filho está mesmo irritado, literalmente a deitar fumo pelas orelhas isso tem tendência para despertar o mesmo em ti? Será que os teus neurónios estão todos focados em fazer uma birra maior do que a dele? Quando estamos presos neste loop de imitação, precisamos de um momento AHA! É só uma pausa de microssegundos em que percebo “Mas que raio estou eu a fazer?”. Lembra-te que o teu filho ainda não consegue fazer esta pausa. Ele está em combustão e não tem maturidade emocional para sair do modo vulcão. Mas tu tens. Podes ajudá-lo a canalizar toda aquela energia para outro sítio de modo a mais tarde, quando a explosão tiver passado completamente, conseguires falar com ele sobre a situação que gerou tudo aquilo e ele conseguir ouvir-te e ouvir-se.

    Dizer “Tem calma!” deve ser a coisa mais ineficaz e irritante que se pode dizer a alguém que está passada dos carretos. Eu tenho um truque: uso a técnica canguru. Quando estamos mesmo zangados saltamos como um canguru por mais ou menos uns 5 minutos. Começo eu e, os neurónios do pequeno catita não tardam a acompanhar-me. Gradualmente, salto a salto, a zanga dá lugar à alegria. Usamos a energia para saltar em vez de saltarmos para o pescoço um do outro.

    Quando começas a arrumar, os neurónios do teu filho querem arrumar contigo. Quando estás a ouvir, os neurónios do teu filho aprendem a ouvir. Quando estás a acarinhar, os neurónios dele aprendem o carinho. Cada vez que estiveres a dar o exemplo ao teu filho tens os neurónios dele na tua equipa. Por isso, sê o exemplo que queres ver crescer e aproveita para crescer pelo caminho.

    Escrito originalmente pela Mãe Catita para a UptoKids.
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