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Confiança

    PINTAR DENTRO DOS CONTORNOS É QUE É NORMAL

    Tinha o pequeno catita 4 anos acabadinhos de fazer quando a educadora, cheia de boa vontade, chamou-me à parte com um ar preocupado e disse: “Ele quando desenha nunca faz contornos. E quando lhe pergunto porquê ele diz que o desenho é isto tudo”, apontando para lá da folha de papel. Eu fiquei feliz, ela ficou preocupada.

    Pensei que era maravilhoso ele não limitar a sua imaginação e sentir que as coisas vão muito para além dos limites que lhes queremos colocar. Ele estava a descobrir uma visão única e especial do mundo e isso era uma ótima ferramenta para usar pela sua vida fora.

    Se pensarmos bem, as grandes descobertas só são feitas quando olhamos para o mesmo problema de um ângulo diferente. Ou quando vemos o problema como um ponto de partida e não um problema. Se olharmos todos da mesma maneira para a mesma coisa, vamos sempre ver o mesmo e a humanidade não evolui.

    Muitas das características únicas do teu filho, que hoje não “encaixam” nas tabelas de excel, vão ser as mesmas que o vão tornar um profissional único, com uma visão inovadora e verdadeiramente pioneira.

    O miúdo teimoso.. torna-se um adulto que não desiste. A miúda que questiona tudo…torna-se uma cientista quântica. A criança que não faz contornos… torna-se um adulto que não constrói barreiras e percebe que a humanidade, afinal, “é isto tudo”.

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    QUANDO ELES ESTÃO PREPARADOS E NÓS NÃO

    O pequeno catita ia ter a sua primeira festa “deixa-me aqui, podes ir à tua vida e vem buscar-me daqui a 3 horas” com a variante que ele conhecia apenas através de um encontro breve mas muito divertido, a aniversariante.

    Chegados à festa ele percebeu que havia uma alteração inesperada no casting, afinal aqueles miúdos não eram os colegas da escola. “Mãe, onde estão os meus amigos?” Ai, que isto não vai correr bem. “Estes são meninos que ainda não conheces mas pode ser uma boa oportunidade para os conheceres. Anda, vamos ver o espaço e logo me dizes se queres ficar aqui ou não. Pode ser?”.

    Nestes momentos totalmente novos, o pequeno catita precisa do seu momento azul. Isso, azul.

    O método LASEr tem por base quatro cores: vermelho, laranja, azul e verde. A cada uma delas estão associadas necessidades emocionais. O comportamento dos nossos filhos surge para nos mostrar que necessidade ou necessidades emocionais não estão a ser preenchidas. Como eles não conseguem verbalizá-las, expressam-nas pelo comportamento.

    Normalmente cada criança tem duas cores dominantes, sendo que em situações específicas as necessidades delas podem ser outras. Temos de estar atentos e receptivos para ler as pistas.

    O pequeno catita é dominantemente verde, tem uma grande necessidade de conexão e pertença, e vermelho pois tem uma grande necessidade de reconhecimento e significância. Ou seja, senti que para o ajudar naquele momento teria de manter a nossa conexão “mãe-filho” enquanto o ajudava a criar algum elo emocional com o espaço e lhe dava tempo para se ambientar, reconhecendo e validando o que ele estava a sentir.

    O espaço tinha muitas atividades giras, mostrei-lhe algumas salas e brincadeiras e expliquei-lhe com quem tinha de falar em caso de precisar de alguma coisa.

    Ele estava quase pronto. Sentia-lhe a vontade de correr e de ir explorar a crescer com o sorriso. Olhando-o nos olhos enquanto segurava na mão dele disse:

    “Vais viver muitas aventuras e aprender coisas novas, quando estiver na hora de cantar os parabéns estou aqui à tua espera”. É importante dar esta sequência de eventos para ele sentir segurança, foi o momento azul (segurança e conforto) que ele precisou para se afastar alegremente de mim e começar a brincar com quem não conhecia voando para longe de mim.

    Eu fiquei ali parada, a pensar que não me apetecia sair dali. Não estava preparada mas ele estava. E foi naquele momento que ele cresceu muito e eu também.

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    GOSTAR DOS MAUS PODE SER BOM

    Estás a ver o Peter Pan? Qual é o personagem que gostas mais? Perguntava a Avó Catita.

    Gosto de todos. Mas gosto mais do capitão Gancho!

    Mas o Capitão Gancho é mau!  Diz a Avó em choque.

    Eu gosto dos maus!” (acompanhado de sorrisinho malandreco).

    Eu também gosto dos “maus”. Os “maus” balançam as coisas. Arranjam aventuras para os “bons” serem heróis. Ajudam os “bons” a crescer e a ultrapassar as suas limitações. Os “maus” momentos trazem grandes dores de crescimento mas sem elas ficamos para sempre do mesmo tamanho. Às vezes estamos tão prontos para resolver tudo e tornar tudo “bom” para os nossos filhos que os privamos de uma grande prenda, passar por uma situação difícil e aprender com ela. É mesmo difícil assistir e não intervir. Instintivamente só os queremos proteger de tudo e vê-los a sorrir, mas é mesmo importante confiar. Confiar no ser humano que eles são e na sua capacidade de resolver, aprender e crescer. Se eu não deixar o meu filho falhar a entrega de um trabalho como vai ele aprender a responsabilidade? Se ele não se desiludir com um amigo que não era assim tão amigo, como vai aprender a superar uma desilusão?
    Nós não vamos estar sempre lá, em cada momento, em cada segundo da vida deles, eles precisam da sua própria caixa de ferramentas, das suas soluções únicas e dos seus pontos de vista especiais. O meu desafio é deixá-lo ter um mau momento e estar presente e disponível se ele precisar de mim. Estar lá num momento mau é bom. Estar ali e confiar enquanto ele cresce com os passos que ele decide dar pelo caminho que ele vai fazendo. É ensiná-lo a aceitar a Vida tal como ela é, com muitas oportunidades e desafios, com muitos Peter Pans e Capitães Gancho.

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    OS ACIDENTES ACONTECEM NA NATUREZA

    Quando deixo cair uma coisa e ela parte, posso: 1- ficar a olhar para o que aconteceu e culpar-me durante horas e contar aos amigos e culpar-me outra vez; 2 – posso apanhar os cacos (ou tirar uma foto artística para o instagram); 3 – posso tentar culpar outra pessoa pelo que aconteceu (pode demorar mas de certeza que consigo encontrar alguém); 4 – tentar avaliar todas as condicionantes que levaram ao sucedido numa tentativa vã de controlar o próximo; 5 – posso aceitar que as coisas acontecem porque acontecem.

    PUMBA! CATRAPÁZ! PIMBA! O mealheiro do Capitão Polo Polar espatifou-se.

    Quando o meu filho deixa cair uma coisa e ela parte… fica a olhar para mim. Parado e de olhar frágil, fica à espera da minha reação para ter a dele. São apenas alguns segundos em que um dique segura tudo o que vai dentro dele.

    O mealheiro ficou em pedacinhos, aconteceu.

    Depois de respirar profundamente umas quantas vezes, tenho uma excelente oportunidade para ensinar ao meu filho uma consequência natural que dá sempre jeito: cai, é frágil, parte-se. Tenho uma oportunidade para reconhecer os sentimentos que ele tem nesse momento ajudando-o a lidar com eles (aumentando a conexão e fomentando a autoestima) e estou na ocasião certa para deixá-lo encontrar sozinho uma solução, por exemplo fazer tarefas em casa para comprar um novo.

    Importante, mesmo importante, naquele momento é ajudá-lo a ter jogo de cintura para os reveses da vida. Para quando nos acontecem coisas menos boas que nos apanham de surpresa e aparecem sei lá de onde, conseguirmos não responder com ansiedade ou reatividade emocional mas com presença e aceitação. Aceitá-las como pontos de partida e não destinos fatídicos.

    Desde pequenino que lhe digo “os acidentes acontecem na natureza”. Na natureza tudo nasce e cai, floresce e desaparece. Flui e simplesmente é. Quando repetia a frase ao meu filho, toneladas saíam por magia daqueles olhos enquanto ele se levantava e tentava novamente. De cada vez a frase fazia mais sentido e tornava-se mais sua. Dava-lhe força e ajudava-o a levantar-se sem culpa, sem carrego.

    No outro dia parti uma coisa, gostava muito dela e ainda estava perdida entre o ponto 1 e 4. Ele veio devagar, colocou os braços à minha volta e disse Mamã, os acidentes acontecem na natureza”... e pelo caminho ele aprendeu também o que é a empatia.

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    A EMPATIA É BEM MELHOR QUE UMA SANDES DE QUEIJO

    https://www.youtube.com/watch?v=1Evwgu369Jw&nohtml5=False

    Ele está triste, mesmo triste. Eu só quero que passe. Tento tudo porque dói que se farta ouvi-lo chorar. Às vezes tento distraí-lo fazendo malabarismos variados e figuras que espero nunca irem parar à net. Pode até sair-me um “Já passou, está tudo bem” ou um “Queres uma sandes de queijo?”. Apesar de doloroso para os pais verem o seu filho em tamanha ebulição emocional, estamos na verdade perante uma oportunidade única de conexão com os nossos filhos.

    E o que temos de fazer? Nada. Estar inteira, só ali, naquele sítio escuro com eles.

    Ouvir, aceitar, empatizar e mostrar que ter qualquer uma das emoções é natural, as “boas” e as “más”. É tão importante estar triste como estar feliz. E quando estamos tristes temos de respeitar esse sentimento com o mesmo respeito que respeitamos uma grande alegria. Faz tudo parte da nossa humanidade e é assim que aprendemos sobre nós e sobre os outros. Se eu não aceito a minha tristeza, como posso aceitar essa parte de mim? Se a minha mãe não aceita quando estou triste ou zangado como pode gostar dessa parte de mim? É por isso que este momento de vulnerabilidade é especial e permite aceder de uma forma única ao nosso filho e a nós.

    “Estás triste? Eu também fico triste muitas vezes. Posso sentar-me ao pé de ti?” é tão mais poderoso que uma sandes de queijo.

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    O INCRÍVEL RAPAZ COM GARRAS NOS PÉS

    Guilherme, 4 anos, adora as suas unhas dos pés. São dele, são as suas garras. Na hora de as cortar chora furiosamente de uma forma descontrolada: “não quero, vai doer”. Mesmo depois de perceber pela experiência que não doeu, na vez seguinte ao tentar cortar as unhas tudo se repete.

    Respira Mãe Catita.

    Começo por deixar de tentar resolver o “problema” e tentar perceber o que está realmente em causa. Estou a respeitar e reconhecer a necessidade do meu filho? O que ele está a tentar comunicar? Respira Catita.

    A Parentalidade Consciente usa algumas ferramentas que nos ajudam a perceber melhor as necessidades que os nossos filhos precisam de sentir preenchidas e que muitas vezes ficam perdidas no seu comportamento, que é o maior foco de outras formas de educação.

    Um dos métodos que gosto de utilizar é o método LASEr do Pedro Vieira. Este método define 4 cores de personalidades-tipo às quais correspondem necessidades predominantes. Usando o método LASEr, descobri que o meu filho é verde (necessidade de conexão e pertença), vermelho (necessidade de reconhecimento e significância) em situações pontuais é bastante azul (necessidade de segurança e controlo). Neste caso, senti que através da conexão e do reconhecimento da sua opinião poderia encontrar uma forma de lhe dar controlo da situação.

    Enquanto ele continua a berrar e a espernear, guardo a tesoura e procuro usar uma linguagem pessoal para comunicar de uma forma consciente com ele. Tento ouvi-lo e não apenas ouvir para arranjar maneira de lhe cortar as unhas.

    “Guilherme, a mamã quer falar contigo, já vi que estás muito zangado. Podes olhar para os meus olhos por favor? Gosto de falar contigo quando olhas para mim, assim sei que estás a ver o que estou a sentir e eu também vejo o que tu estás a sentir” (ainda chorar sentou-se ao meu lado, abracei-o).

     

    “ – Vejo que ficas muito zangado e nervoso na altura de cortar as unhas dos pés, não é? Porquê?

    – Vai doer. As unhas são pequeninas, vai doer muito.

    – As das mãos também doem?

    – Não. Estas é que são pequeninas.

    – Hum?! Então o que custa são mesmo as dos pés?

    – Sim..

    – Eu percebo. Também gosto mais de cortar as unhas das mãos.

    – Eu preciso mesmo de te cortar as unhas dos pés, elas estão muito grandes e podem magoar-te. Fico preocupada por estarem assim tão grandes.

    – O que achas que podemos fazer para não te custar tanto? Tens alguma ideia?

    – Deixa-me pensar.. Podíamos fazer legos…

    – Boa ideia, assim já não vai doer?

    – E jogar no Ipad! Não mamã, assim não. Assim é cósmico.”

     

    Durante a comunicação consciente procurei reconhecer o que ele estava a sentir, confirmar esse sentimento e dar espaço e apoio para ele encontrar a sua solução.

    É mais fácil agarramo-nos ao pensamento que julga ”que disparate, agora tem medo de cortar as unhas dos pés” ou ao “cortas e acabou a choradeira”.

    É mais desafiante sentir porque é que me incomoda ele não fazer o que eu quero. Questionar a diferença entre o que quero e qual a minha intenção. Aceitar que o Guilherme é uma pessoa inteira, com o mesmo valor que eu e cujas emoções são tão válidas e importantes quanto as minhas.

    É preciso largar o saco, este saco pesado que carregamos cheio de expectativas e pensamentos que muitas vezes nem eram nossos e que já não nos servem nem devem passar para os nossos filhos.

    Aceitar. Eu também tenho medo. E gostava mesmo que me tivessem perguntado “O que achas que podemos fazer para não te custar tanto? Tens alguma ideia?” …sabia tão bem essa pergunta. Sabia a “Eu vejo-te”, a “eu estou aqui contigo e gosto muito de ti como tu és, com todos os teus medos e emoções”. A sentir que a minha integridade física é importante, e que o meu corpo é meu até à pontinha das unhas dos pés.

    Através desta situação, tive a oportunidade maravilhosa de conhecer mais um pouco o meu filho, de regar a sua autoestima, de aumentar a nossa ligação e confiança. De usar a minha mente de principiante para olhar pela primeira vez para a situação de cortar as unhas dos pés e o meu detective-mamã para descobrir as necessidades em falta. Percebi que ele tem uma grande necessidade de pertencer em todos os processos, de ser ouvido, de ter algo a dizer para se conseguir sentir seguro.

    É incrível o meu rapaz com garras nos pés.

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